28 de janeiro de 2012

Evangelho (Marcos 1,21-28)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

21Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar.
22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.
23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”.
25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”
26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu.
27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!”
28E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

Com Jesus não há motivo para o cristão ter medo

Muitas vezes, costumamos usar frases como “estou passando por uma tempestade” para falar que estamos passando por uma situação difícil. E quantas vezes também dizemos que nossa comunidade está navegando em “águas tranquilas” ou de “vento em popa”. Com isso, queremos dizer que no momento não há dificuldades, que tudo vai bem, as pessoas se entendem e de fora não há maiores ameaças que possam destruir o espírito comunitário.
Mas, é assim que sentimos normalmente a comunidade? Ou existem outras figuras que explicam melhor o que se passa? Por exemplo: parece que “o barco está afundando” ou uma “tempestade” atingiu nossa comunidade, ou ainda, tem muita “onda brava” querendo nos arrasar. Que significa isso? Significa que o “mar” da nossa sociedade está tão cheio de perigos e de ameaças que a gente não consegue mais se defender. Ou que os “ventos” do espírito de egoísmo e consumismo invadem tudo.
E nós? Ficamos com medo ou resistimos com confiança e coragem? Como sentimos a presença de Jesus que acalma a tempestade?
São Marcos usa essa mesma linguagem para mostrar como a comunidade cristã estava 37 anos após a Morte e Ressurreição de Jesus. Explico-me melhor:
Quando surgiu o Evangelho de Marcos, por volta do ano 70 d.C., a comunidade cristã estava sendo perseguida pelo Império Romano. A situação de medo, pavor e intranquilidade fez com que Marcos comparasse essa comunidade com um barquinho perdido no mar da vida, açoitado por ventos fortes e impedido de chegar ao porto.
Para os judeus o mar era o lugar da morada dos monstros e dos poderes da morte, onde a frágil vida do homem estava em constante perigo. Para os cristãos daquela época Jesus parece estar dormindo, pois não aparece nenhum poder divino para salvá-los das perseguições. É em vista desta situação de desespero que Marcos, na hora de escrever o seu Evangelho, como resposta positiva para as comunidades se animarem, recolhe vários episódios da vida que revelam qual o Jesus presente no meio da comunidade cristã.
Com esse episódio, Marcos procura abrir os olhos dos cristãos para mostrar-lhes que o contrário da fé não é a incredulidade, mas sim o medo. E que o medo impede de compreender Jesus como o Senhor da vida, que triunfa sobre a morte. Jesus é vencedor! Não há motivo para os cristãos terem medo. Este é o motivo do relato da tempestade acalmada.
Foi um dia pesado, de muito trabalho. Terminado o discurso das parábolas, Jesus diz: “Vamos para o outro lado!”. Do outro lado do mar da Galileia ficava uma região de gente “pagã”, que não pertencia ao povo israelita. Os discípulos sentiam medo de entrar em contato com essa gente. Do jeito que Jesus estava, eles O levam no barco, de onde tinha feito o discurso das parábolas. De tão cansado, Cristo deita e dorme. Esse é o quadro inicial que o evangelista pinta. Quadro bonito, bem humano.
O mar era um lugar que dava medo. O povo daquele tempo pensava que no mar moravam grandes monstros e onde o demônio andava solto. Quem mandava no mar eram os demônios. Por isso, na Bíblia, muitas vezes, mar não tem só o sentido de grande extensão de água, mas também símbolo de perigo e das forças do mal.
Só que muita gente não sabe que o “mar” da Galileia, na verdade, não passava de um grande lago cercado por altas montanhas. Às vezes, por entre as fendas das rochas, o vento cai em cima do lago e provoca tempestades repentinas provocando as inúmeras interpretações, como as que já vimos.
Vento forte, mar agitado, ondas… São também símbolos de agitação, ligados ao mar. Quando a primeira comunidade cristã refletia sobre essa passagem do Evangelho, lembrava-se das dificuldades e ameaças de destruição que enfrentava.
Os discípulos eram pescadores experientes. Se eles acham que vão afundar, então a situação é perigosa mesmo! A barca era um instrumento para navegar. Mas era também um símbolo da comunidade dos primeiros cristãos. Eles sentiam a sua caminhada como um barco navegando pelo mar.
Jesus nem sequer acorda e continua dormindo. Este sono profundo não é só sinal do grande cansaço, é também expressão da confiança tranquila que Ele tem em Deus. O contraste entre a atitude de Cristo e a dos discípulos é grande!
Os primeiros cristãos, muitas vezes, achavam que as dificuldades e perseguições eram maiores do que as suas forças. Jesus, que tinha prometido estar sempre junto deles, parecia estar dormindo.
Jesus Nazareno acorda, não por causa das ondas, mas por causa do grito desesperado dos discípulos. Primeiro, Ele se dirige ao mar e diz: “Fique quieto! Cale-se! Acalme-se!” E logo o mar se acalma. Não se trata de uma ordem do Senhor que tem efeitos mágicos. Marcos não quer mostrar que Jesus pode mudar as leis da natureza, quer mostrar que Ele é uma presença que vence os poderes do mal e traz de novo coragem e confiança para os seguidores que estão assustados com as dificuldades e perseguições.
Em seguida, se dirige, aos discípulos e diz: “Por que vocês têm medo? Ainda não têm fé?” A impressão que se tem é que não é preciso acalmar o mar, pois não havia nenhum perigo. É como quando você chega a uma casa e o cachorro, ao lado do dono, late muito. Aí não precisa ter medo, pois o dono está lá e controla a situação. O episódio evoca o êxodo, quando o povo, sem medo, passava pelo meio das águas do mar (cf. Ex 14,22). Evoca o profeta Isaías que dizia ao povo: “Quando passares pelas águas eu estarei contigo!” (Is 43,2). Jesus refaz o êxodo e realiza a profecia anunciada pelo Salmo 107 (106).
E acalma o mar e diz: “Então, vocês não têm fé?” Os discípulos não sabem o que responder e se perguntam: “Quem é este homem a quem até o mar e o vento obedecem?” Jesus parece um estranho para eles! Apesar da longa convivência, não sabem direito quem Ele é.
“Quem é este homem?” Com esta pergunta na cabeça, a comunidade cristã daquela época continuava sua leitura. E até hoje, é esta mesma pergunta que nos leva a continuar a leitura do Evangelho. É o desejo de conhecer sempre melhor o significado de Jesus para nossas vidas.

Onde está o seu coração hoje?

Se quisermos saber o que é caro e importante para nós é só perguntarmos onde está o nosso coração, que não é formado só da carne, mas de todo o nosso ser.

O que foi que encheu todo o nosso dia e nos alegrou? Se soubermos com qual função ocupamos o nosso tempo saberemos onde está o nosso coração. Se respondermos que o nosso coração está em Deus é sinal de que também o nosso corpo está no Senhor. Ter um coração em Deus é também ir para a eternidade.

O nosso coração nos mostra o que é caro e precioso para nós. E essa Palavra fala do dinheiro, do que é contável, como as cédulas, que não são as únicas formas de dinheiro. E chama a nossa atenção se realmente queremos colocar o nosso coração naquilo que é passageiro e não dura eternamente.

A Palavra de Deus não é contra que tenhamos coisas materiais, mas ela quer nos levar a algo melhor e nos pergunta se sabemos o quanto a nossa vida é valiosa para nos perdermos por esses outros tesouros.

Assim como numa pesquisa foi relatado que a qualidade de vida das pessoas na velhice está ligada ao relacionamento que tiveram na juventude, a vida não está ligada aos bens materiais que a pessoa tem, mas sim ao dar valor às amizades que ela possui.

Se zelamos pela amizade, ela se torna incorruptível, não se perde, não estraga, isso se ela [amizade] for verdadeira. Amizade é uma coisa viva, por isso precisa ser cultivada, assim como para uma planta para dar flores precisa ser adubada.

Existem amizades que cuidamos e cultivamos todos os dias; assim como há algumas [amizades] que temos de dar um espaço, um tempo, mas alimentá-la sempre, para que ela não passe nem estrague.

Amizade boa é amizade velha. É um investimento que, quando a pessoa está idosa, tem alguém com quem compartilhar tudo. Uma das coisas mais importantes para nós na velhice é o fator espiritual, algo que nos dê sentido, pois passamos a vida inteira ocupados, mas chegará uma hora em que o corpo não responderá como antes. É quando seremos obrigados a parar certas atividades, começarmos a ver que a vida não tinha outro sentido que não o trabalho.

Não podemos resumir a nossa vida ao que fazemos. Além do mais, o que fazemos vai passar, e nesta sociedade, a pessoa que não produz, não tem utilidade. A Palavra de Deus se preocupa com coisas que, muitas vezes, não ligamos, como: se colocamos nosso coração em valores passageiros ou em eternos. Tudo que guardamos neste mundo é passível de corrupção, de se estragar, de se perder.

A Palavra diz para não cobiçarmos as coisas allheias; todo ser humano tem que ter projetos, sonhos, mas estes devem ter limites, pois a Palavra nos limita. A condenação está na ambição desregrada, em querer o que é do outro, assim como o que nasce de um desejo de posse sem moderação. A Palavra quer que nós nos libertemos disso.

Ela também nos manda banir a inveja, pois ela nos leva às piores ações. O termo “o que os olhos não veem o coração não sente” é porque começamos a cobiçar e a ter inveja pelos olhos. E esse mal nunca cai em casa, e sim na rua, porque o invejoso sempre anda por aí desejando ter o que é dos outros e não o que possui.

Invejar é, na verdade, a tristeza sentida diante do bem do outro e, assim, sempre descobrimos quem são realmente nossos amigos nos momentos de alegria, pois os que não nos amam não suportam a nossa felicidade! Se quem está ao nosso lado não nos ama, para ele é insuportável ficar ao nosso lado nessa hora. A inveja é o desejo sem moderação de se apropriar daquilo que é do outro.

Notamos que a Palavra de Deus não é algo que não possamos praticar, ela quer banir o mal de nós já que prejudica as pessoas intencionalmente e é pecado grave. Ainda nos ajuda ao nos mostrar que podemos combater a inveja com a humildade e com a entrega da nossa sua vida nas mãos da Divina Providência.

Existem coisas dentro de nós que temos de cortar como a cobiça e a inveja. Quantas pessoas não foram cobiçosas nem invejosas e foram felizes?

Que Deus nos revele neste momento onde está o nosso coração para que possamos descobrir o que é importante para a nossa vida.

O mundo está como está porque nós não amamos.

“Um mandamento novo eu vos dou: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, vós também amai-vos uns aos outros. Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros” (Jo 13,34-35). Jesus vivera com eles durante todo aquele tempo, treinando-os no “amai-vos uns aos outros”. O Senhor os amou primeiro e os foi formando para se amarem uns aos outros com todas as diferenças e com todas as durezas que havia entre eles: “Como eu vos amei, vós também, amai-vos uns aos outros”.

Conosco agora é a mesma coisa. Jesus precisa nos treinar no amor efetivo uns para com os outros, para irmos e formarmos discípulos, ensinado-os, com nossa vida, a amar como Ele nos amou.

Daí você vê que o mundo está como está porque nós não amamos; porque não assumimos o bastão que Jesus pôs em nossas mãos; porque não formamos discípulos. A civilização do amor acontecerá quando pusermos o amor em prática em nossa vida.

Em outras palavras, o mundo novo depende de nós: se amamos ou não amamos; se formamos discípulos ou continuamos "na nossa".

Diante de todo o desamor do mundo, amar será nosso bom combate. O Senhor não desiste: Ele que formou Seus apóstolos (e não foi fácil), quer formar-nos combatentes no amor.

Deus o abençoe!

22 de janeiro de 2012

Hoje a Igreja celebra São Vicente - 22 de Janeiro

Um santo amado e citado por muitos santos, como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Prudêncio e outros que trouxeram à tona o testemunho desse grande diácono e mártir da Igreja.

Nasceu na Espanha, em Huesca, no século terceiro. De uma família muito distinta e conhecida por todos, ele escolheu ser cristão e, assim, viver a santidade.

Vicente viveu num período muito difícil da Igreja. Um tempo em que Diocleciano e Maximiano – imperadores –, começaram a perseguir os cristãos e forçar muitos a se declararem a favor dos deuses; caso contrário, seriam martirizados. O santo de hoje foi um dos que fez a opção por Jesus.

Ele era um grande pregador da Palavra, mais do que isso, buscava viver a Palavra que pregava, esta que é, antes de tudo, Cristo Jesus, o Santo dos Santos, o nosso modelo, o nosso Senhor e Salvador. Diante das ameaças do governador Darciano, ele não recusou a se dizer cristão e fiel ao Senhor.

Os tormentos o perseguiram. Foi um martírio lento, sempre com o objetivo de vencê-lo para que Darciano se desse como herói diante do Cristianismo, mas também com o objetivo de levar São Vicente a renunciar a própria fé, a sacrificar aos deuses. Fiel a Deus e sustentado pela oração, diante de si ele tinha o seu grande amor: Deus. Sendo assim, ele for martirizado aos poucos, até mesmo levado à grelha, tendo seu corpo dilacerado, jogado numa prisão e, por fim, Darciano deixou-o num leito pedindo que cuidassem dele. Ali, sim, ele foi visitado por outros cristãos e entregou-se a Deus.

São Vicente tornou-se modelo para todos os cristãos e também padroeiro principal do patriarcado de Lisboa e também da diocese de Faro.

São Vicente, rogai por nós

Evangelho (Marcos 1,14-20) Domingo, 22 de Janeiro de 2012 3º Domingo do Tempo Comum

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor!

14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo:
15“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”
16E, passando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
17Jesus lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”.
18E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus.
19Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; 20e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus.

A evangelização nasce a partir de um relacionamento pessoal com Jesus Cristo

João Batista foi preso porque Herodes temia, assim como os chefes religiosos de Israel, a popularidade dele [João] e a contestação que fazia do sistema opressor sob o qual o povo vivia. Após a prisão, Jesus retorna à Galileia, que é um território predominantemente gentílico. Ali, o Senhor desenvolve Seu ministério com o mesmo anúncio de João Batista: a proximidade do Reino e da conversão à justiça.

Marcos, bem como Mateus e Lucas, narra o chamado dos primeiros discípulos às margens do Mar da Galileia. O Evangelho de João narra este chamado já na ocasião do Batismo de Jesus, quando alguns discípulos dele [João Batista] se dispõem a seguir o Senhor. O chamado, narrado em estilo sumário, na realidade, se fez em um clima de diálogo e conhecimento mútuo. Assim como Cristo abandonou Sua rotina de vida em Nazaré, também Seus discípulos abandonam seu antigo sistema de vida, não para fugirem do mundo, mas para iniciarem uma nova prática social alternativa de justiça, fé e paz.

Segundo a narração de Marcos (1,16-29) e de Mateus (4,18-22), o cenário da vocação dos primeiros apóstolos é o mar da Galileia. Jesus acabara de iniciar a pregação do Reino de Deus, quando o Seu olhar pousou sobre dois pares de irmãos:  Simão e André, Tiago e João. São pescadores, empenhados no seu trabalho cotidiano. Lançam as redes, consertam-nas. Mas outra pesca os aguarda. Jesus chama-os com decisão e eles seguem-No imediatamente: agora serão “pescadores de homens” (cf. Mc 1,17; Mt 4,19).

Lucas, ainda que siga a mesma tradição, faz uma narração mais elaborada sobre isso (5,1-11). Ele mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, esclarecendo que o convite para o seguimento lhes chega depois de terem ouvido a primeira pregação de Jesus e experimentam os primeiros sinais prodigiosos por Ele realizados. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens, que lhes foi confiada. O destino destes “chamados”, de agora em diante, estará intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado mas, ainda antes, um “perito” em Jesus.

Precisamente este é o aspecto realçado pelo evangelista João desde o primeiro encontro de Jesus com os futuros apóstolos. Aqui o cenário é diferente. A presença dos futuros discípulos, provenientes também eles, como Jesus, da Galileia, para viver a experiência do batismo administrado por João, esclarece o seu mundo espiritual. Eram homens na expectativa do Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda estava anunciada como iminente.

Para eles, é suficiente a orientação de João Batista que indica em Jesus o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,36), para que surja neles o desejo de um encontro pessoal com o Mestre. As frases do diálogo de Jesus com os primeiros dois futuros apóstolos são muito expressivas. À pergunta: “Que procurais?”, eles respondem com outra pergunta: “Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?”. A resposta de Jesus é um convite: “Vinde e vede” (cf. Jo 1,38-39).

Vinde para poder ver. A aventura dos apóstolos começa assim, como um encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Começa para os discípulos um conhecimento direto do Mestre. Veem onde Ele mora e começam a conhecê-Lo. De fato, eles não deverão ser anunciadores de uma ideia, mas testemunhas de uma Pessoa. Antes de serem enviados a evangelizar, deverão “estar” com Jesus (cf. Mc 3,14), estabelecendo com Ele um relacionamento pessoal. Sobre esta base, a evangelização não será mais do que um anúncio daquilo que foi experimentado e um convite a entrar no mistério da comunhão com Cristo (cf. 1 Jo 13).

A quem serão enviados os apóstolos? No Evangelho parece que Jesus limita a Sua missão unicamente a Israel: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). De modo análogo parece que Ele circunscreve a missão confiada aos Doze: “Jesus enviou estes Doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: ‘Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel’ “ (Mt 10,5s.).

Uma certa crítica moderna de inspiração racionalista vê nessas expressões a falta de uma consciência universalista do Nazareno. Na realidade, elas devem ser compreendidas à luz da Sua relação especial com Israel, comunidade da aliança, em continuidade com a história da salvação. Segundo a expectativa messiânica as promessas divinas, imediatamente dirigidas a Israel, ter-se-iam concretizado quando o próprio Deus, por intermédio do Seu Eleito, reunisse o Seu povo, como faz um pastor com o rebanho: “Eu virei em socorro das minhas ovelhas, para que elas não mais sejam saqueadas… Estabelecerei sobre elas um único pastor, que as apascentará, o meu servo Davi; será ele que as levará a pastar e lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será um príncipe no meio delas” (Ez 34,22-24).

Jesus é o Pastor escatológico, que reúne as ovelhas perdidas da casa de Israel e vai à procura delas, porque as conhece e ama (cf. Lc 15,4-7 e Mt 18,12-14; cf. também a figura do Bom Pastor em Jo 10,11ss.). Por meio desta “reunião” o Reino de Deus é anunciado a todas as nações: “Manifestarei a minha glória entre as nações, e todas me verão executar a minha justiça e aplicar a minha mão sobre eles” (Ez 39,21). E Jesus segue precisamente este caminho profético. O primeiro passo é a “reunião” do povo de Israel, para que assim todas as nações, chamadas a reunirem-se na comunhão com o Senhor, possam ver e crer.

Assim os Doze, chamados a participar na mesma missão de Nosso Senhor Jesus Cristo0, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, indo também eles, em primeiro lugar, até as ovelhas perdidas da casa de Israel, isto é, dirigindo-se ao povo da promessa, cuja reunião é o sinal de salvação para todos os povos, o início da universalização da Aliança. Longe de contradizer a abertura universalista da ação messiânica do Nazareno, a inicial limitação a Israel da Sua missão e da dos Doze torna-se assim o Seu sinal profético mais eficaz. Depois da Paixão e da Ressurreição de Cristo este sinal será esclarecido: o caráter universal da missão dos apóstolos tornar-se-á mais explícito. Cristo enviará os apóstolos “a todo o mundo” (Mc 16,15), a “todas as nações” (Mt 28,19;  Lc 24,47), “até aos extremos confins da terra” (At 1,8).

E essa missão continua. Continua sempre o mandato do Senhor de reunir os povos na unidade do Seu amor. Esta é a nossa esperança e este é também o nosso mandato: contribuir para esta universalidade, para esta verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com o nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo.